A Crise do Mundo Moderno
Em 1927, o filósofo francês René Guénon publicou La Crise du monde moderne — um pequeno volume de menos de duzentas páginas que é, com O Reino da Quantidade (publicado vinte anos depois), a coluna vertebral da sua obra crítica. Guénon, matemático e metafísico, convertido ao islam sufi e instalado no Cairo desde 1930, escrevia a partir de uma convicção herdada das grandes tradições orientais, sobretudo do hinduísmo: o mundo moderno, no sentido em que ele usa o termo — Ocidente pós-Renascença, em especial pós-Iluminismo —, não é um avanço sobre as civilizações anteriores; é uma degeneração terminal.
A degeneração, argumenta Guénon, é identificada pela perda do contato com o que ele chama de metafísica tradicional, ou seja, com a dimensão superior do real — que as civilizações antigas (Índia védica, China taoísta, Grécia platônica, cristianismo medieval) conheciam sob formas diferentes mas equivalentes. Ao substituir a metafísica pela ciência, a contemplação pela ação, a qualidade pela quantidade, o Ocidente moderno se amputou da sua própria raiz. A ciência moderna, para Guénon, não é incorreta — é parcial. Estuda apenas o menor plano da realidade. Os homens modernos, ao tomarem este plano como único, reduzem-se a si mesmos ao seu próprio instrumento.
Guénon não é um autor consolador. As suas conclusões são severas, e não há nele nenhuma proposta de reforma política. Ele está escrevendo, como o próprio indica, “para os poucos” — aqueles que ainda conseguem ouvir — e oferece, como único caminho real, o reencontro pessoal com alguma tradição autêntica. A Crise do Mundo Moderno é livro polêmico, que exige do leitor disposição de questionar categorias que o mundo contemporâneo considera inabaláveis. Monir e Olavo tiveram neste autor, em fases diferentes da vida, alimento decisivo. Ler Guénon não é aceitar Guénon. É descobrir que há perguntas — sobre o próprio tempo em que vivemos — que quase ninguém mais coloca.